Redakcja Polska

Quando a língua cura: a fisioterapia em polonês que transforma vidas no Brasil

23.02.2026 18:00
Na cidade de Araucária, na região metropolitana de Curitiba, uma clínica de fisioterapia tem chamado atenção não apenas pelos resultados clínicos, mas pela língua em que parte significativa dos atendimentos é conduzida: o polonês.
O uso da lngua polonesa na reabilitao traz benefcios cognitivos e motores aos pacientes
O uso da língua polonesa na reabilitação traz benefícios cognitivos e motores aos pacientesinstagram.com/jaquelineburkot

À frente do consultório Fisioarth está Jaqueline Maria Burkot, 35 anos, fisioterapeuta e empresária, quinta geração de poloneses no Brasil. Seus antepassados emigraram em 1885 da região da Galícia, então sob domínio do Império Austro-Húngaro, para o sul do país. Filha de agricultores, Jaqueline cresceu entre a lavoura e uma casa onde o polonês era mais do que memória — era língua viva.

Mesmo após um século da chegada da família ao Brasil, o idioma foi transmitido entre gerações. Avós maternos e paternos falavam polonês, que se tornou sua língua herança. Na escola, ainda criança, teve o apoio de uma professora sensível que compreendia o idioma, facilitando sua adaptação ao português.

A herança cultural sempre esteve ligada à fé e à música. O bisavô, Albino Kosiba, cantava na igreja da comunidade de São Miguel, em Thomaz Coelho, marco da imigração polonesa em Araucária. Incentivada pela avó Emília Kosiba e pelo avô Luiz Tocarski, Jaqueline aprendeu a ler em polonês, principalmente textos religiosos. Aos nove anos, cantou para o bispo polonês Szczepan Wesoły durante visita ao Brasil, interpretando a canção “Najświętsza Panno Gidelska”. Desde então, passou a participar de corais, desfiles e festividades típicas. Tem como inspiração o Papa Joao Paulo II, símbolo da identidade católica e polonesa que ela busca manter viva no Brasil.

A língua como ferramenta terapêutica

Há dois anos, ao abrir sua clínica, Jaqueline percebeu algo que transformaria sua prática profissional. Em muitas famílias descendentes de imigrantes poloneses, ao menos parte da conversa cotidiana ainda ocorre no idioma de herança. Ao introduzir o polonês nas sessões, notou uma mudança imediata no comportamento dos pacientes.

Eles se tornavam mais receptivos, colaborativos e emocionalmente envolvidos com o tratamento. A adesão aos exercícios aumentava, a confiança se fortalecia e o ambiente terapêutico ganhava leveza. “É como se houvesse uma segunda terapia acontecendo ao mesmo tempo”, costuma explicar.

Um episódio marcante ocorreu durante o atendimento a uma paciente que havia sofrido um AVC. Ao cantar em polonês durante a sessão, Jaqueline percebeu que, além de se acalmar, a paciente tentava acompanhar as palavras. Pouco a pouco, voltou a vocalizar sons e, em seguida, a reproduzir termos completos — em polonês, idioma que compreendia melhor do que o português naquele estágio da reabilitação.

Reabilitação sendo realizada em língua polonesa    Fonte: Fisioarth
Reabilitação sendo realizada em língua polonesa    Fonte: Fisioarth

Casos semelhantes se repetiram com pacientes neurológicos, como portadores de Parkinson, Alzheimer e demências. Em muitos quadros degenerativos, é comum a regressão a memórias da infância. E, para parte desses descendentes, a infância foi vivida em polonês. Ao acessar essa camada afetiva e linguística, a fisioterapia ganha uma ponte direta com áreas profundas da memória.

A conexão emocional favorece a liberação de neurotransmissores associados ao bem-estar, melhora o humor e reduz a resistência ao esforço físico. O resultado é um paciente mais engajado, com maior disposição para executar movimentos repetitivos — fundamentais na reabilitação motora — e com evolução funcional mais rápida.

Benefícios motores e cognitivos

Os ganhos vão além do aspecto emocional. A estimulação bilíngue durante os exercícios contribui para:

  • Ativação cognitiva ampliada, estimulando memória, atenção e linguagem simultaneamente.
  • Melhora na coordenação motora, especialmente quando movimentos são associados ao ritmo de canções.
  • Estímulo à neuroplasticidade, essencial em reabilitações pós-AVC.
  • Aumento da adesão ao tratamento, fator decisivo para resultados clínicos consistentes.

A música em polonês, frequentemente solicitada pelos próprios pacientes, transforma sessões técnicas em momentos de participação ativa. Há risos, recordações, histórias antigas compartilhadas entre alongamentos e exercícios de fortalecimento.

Hoje, cerca de 80% dos atendimentos domiciliares são realizados em polonês; no consultório, aproximadamente metade das sessões utiliza o idioma. A repercussão nas redes sociais ampliou a procura. Novos pacientes ligam perguntando se ela é “a fisioterapeuta que atende em polonês”.

Curiosamente, mesmo pessoas sem origem polonesa passaram a se interessar. Alguns chegam ao consultório cumprimentando em polonês, pedem para aprender palavras e participam dos cantos durante a terapia. O ambiente torna-se intergeracional: netos e filhos se envolvem, perguntam como se reza, como se canta, como se pronunciam certas expressões.

O uso da língua polonesa na reabilitação tem trazido benefícios cognitivos e motores aos pacientes Fonte: Fisioarth
O uso da língua polonesa na reabilitação tem trazido benefícios cognitivos e motores aos pacientes    Fonte: Fisioarth

Identidade que cura

O polonês falado por Jaqueline não é idêntico ao idioma contemporâneo da Polônia. Trata-se de uma língua de herança, preservada desde o século XIX, com vocabulário camponês trazido pelos imigrantes, um verdadeiro patrimônio cultural imaterial. É justamente essa forma ancestral que toca seus pacientes — porque é a língua da infância, da família, da igreja, da memória afetiva.

Para ela, o idioma representa identidade, pertencimento e continuidade. Seu filho Arthur, de dois anos, já integra a sexta geração da família no Brasil e começa a formar um pequeno vocabulário em polonês, pedindo à mãe que cante no idioma.

Na clínica de Araucária, a reabilitação física caminha lado a lado com a preservação cultural. Mais do que recuperar movimentos, a fisioterapia conduzida em língua polonesa tem restaurado vínculos, despertado memórias e devolvido aos pacientes algo essencial: o sentimento de serem compreendidos em sua própria história.

Dr Fabricio Vicroski

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