Deflagrado em 22 de janeiro de 1863, O Levante de Janeiro foi a mais longa insurreição polonesa contra o domínio do Império Russo. O movimento teve origem em um protesto de jovens poloneses contrários ao alistamento compulsório no exército czarista. Desde o final do século XVIII, após as Partições da Polônia, o país havia desaparecido do mapa europeu, e sua população estava submetida a potências estrangeiras. Jovens poloneses eram forçados a lutar em nome de um império que negava sua identidade, língua e história.
O descontentamento era generalizado. O levante rapidamente extrapolou os círculos estudantis e passou a contar com a adesão de camponeses, membros da nobreza, políticos, intelectuais e do clero, além de receber apoio diplomático e moral da França. Ainda que fragmentada e sem o respaldo militar das grandes potências europeias, o Levante de Janeiro expressou de forma inequívoca a vontade do povo polonês de recuperar sua independência.
A repressão russa foi brutal. Em 1864, o movimento foi esmagado: centenas de insurgentes foram executados, dezenas de milhares presos, perseguidos ou deportados para a Sibéria e outras regiões remotas do Império Russo. Propriedades foram confiscadas, instituições religiosas fechadas, funcionários públicos destituídos. A língua polonesa sofreu forte repressão e o russo foi imposto como idioma oficial, numa tentativa sistemática de apagar a identidade nacional polonesa.
Apesar da derrota militar, o saldo histórico do Levante de Janeiro foi profundo e duradouro. A revolta fortaleceu a consciência nacional polonesa e consolidou a convicção de que a Polônia sobreviveria mesmo sem um Estado próprio. A partir de então, novas estratégias de resistência ganharam força: mudanças na educação, a preservação da cultura e da fé, a organização da sociedade civil e o enfraquecimento gradual das antigas estruturas feudais. Esse processo, lento e persistente, preparou o caminho para a recuperação da independência em 1918.
Outro desdobramento fundamental do Levante de Janeiro foi a formação de uma diáspora politicamente ativa. Fugindo da perseguição e das deportações, muitos poloneses encontraram no exílio a possibilidade de continuar lutando por uma Polônia livre, internacionalizando a causa nacional e mantendo viva a chama do patriotismo além das fronteiras europeias.
Foi nesse contexto que diversos insurgentes poloneses acabaram aportando no Brasil. Apesar da relevância do tema, a emigração política polonesa para o Brasil permanece pouco explorada pela historiografia. Na Polônia, os participantes dos levantes são celebrados como heróis nacionais, enquanto os insurgentes que encontraram exílio no Brasil permanecem, em grande parte, à margem da memória histórica, com suas trajetórias de vida e contribuições ainda pouco conhecidas e valorizadas.
Szymon Kossobudzki (sentado ao centro) com professores e alunos da Faculdade de Medicina do Paraná. Fonte: Acervo da Academia Paranaense de Medicina
Entre esses nomes destacam-se Piotr Olszewski e Karol Kamieński, participantes diretos do Levante de Janeiro de 1863. No Brasil, estabeleceram-se respectivamente em Áurea (RS) e São Bento do Sul (SC). Já Roman Władysław Skorupski e Szymon Kossobudzki participaram dos levantes operários associados à Revolução Russa de 1905, também conhecida como Revolta de Junho. Após sofrer três deportações para a Sibéria, Skorupski emigrou para o Brasil, onde se tornou uma figura de destaque na promoção da língua e da cultura polonesa em cidades como Curitiba, Ponta Grossa, Porto Alegre e Erechim. Nos anos 1960, teve papel decisivo na retomada do ensino da língua polonesa no Brasil, interrompido pelas políticas de nacionalização do período do Estado Novo implementadas a partir da década de 1930.
Szymon Kossobudzki, por sua vez, foi médico cirurgião, professor universitário, poeta e uma das maiores lideranças da comunidade polonesa no Brasil. Reconhecido como patrono do ensino de cirurgia no Paraná, foi também, ao lado de Skorupski, fundador do Comitê de Defesa Nacional (Komitet Obrony Narodowej), criado em Curitiba em 1912 para apoiar as legiões de Józef Piłsudski, forças militares decisivas na luta pela independência polonesa.
A relação de insurgentes que buscaram refúgio no Brasil inclui ainda o padre Antoni Zieliński, cuja atuação, em conjunto com o engenheiro agrimensor Edmund Sebastian Woś Saporski, lhe conferiu o reconhecimento histórico como um dos precursores da imigração polonesa organizada no país. Merece destaque também o médico Piotr Czerniewicz, veterano do Levante de Novembro (1830–1831), que chegou ao Brasil em 1840 e se tornou um dos introdutores da medicina científica moderna em regiões rurais, além de autor de obras médicas de grande relevância para a prática da medicina no país.
Esses são apenas alguns exemplos dos muitos insurgentes poloneses que encontraram no Brasil um porto seguro diante da repressão política em sua terra natal. No Brasil, não apenas reconstruíram suas vidas, mas contribuíram decisivamente para o desenvolvimento do país, atuando como uma conexão vibrante entre o Brasil e a Polônia.
Szymon Kossobudzki (sentado ao centro) com professores e alunos da Faculdade de Medicina do Paraná. Fonte: Acervo da Academia Paranaense de Medicina
Após 123 anos de dominação estrangeira, a Polônia ressurgiu livre e soberana ao final da Primeira Guerra Mundial. Sua independência foi proclamada em 11 de novembro de 1918. Graças à mobilização da diáspora polonesa no Brasil e ao apoio firme de Rui Barbosa, destacado estadista brasileiro e defensor da causa polonesa, o Brasil tornou-se o primeiro país da América Latina a reconhecer formalmente a independência da Polônia. Mais ainda: em 17 de agosto de 1918, antes mesmo da proclamação oficial, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil já reconhecia a Polônia como nação independente, permitindo a emissão de certificados de nacionalidade aos poloneses residentes no país.
A história da diáspora polonesa no Brasil é também a história de inúmeros homens e mulheres anônimos, cujos nomes não figuram nos registros oficiais, mas cuja memória permanece viva nas famílias de descendentes. Camponeses, operários, artesãos e líderes comunitários que carregaram no coração o amor pela pátria perdida e jamais abandonaram o sonho de uma Polônia livre.
Ao recordar esses insurgentes, a comunidade polonesa no Brasil presta homenagem não apenas a indivíduos, mas a um povo inteiro que jamais se rendeu. A Polônia viveu, resistiu e venceu. E sua história também foi escrita em solo brasileiro.
Dr Fabricio Vicroski