De 27 de julho a 1º de agosto de 2026, foram realizadas em Guarani das Missões e Sete de Setembro as atividades do projeto “Férias de inverno com a cultura polonesa: língua, sabores e danças”. Entre 27 e 31 de julho, Áurea e Carlos Gomes receberam também o projeto “Jovem Diáspora – férias para futuros líderes da comunidade polonesa no Brasil”.
A iniciativa foi coordenada pela professora de língua polonesa Marzena Kowalczyk-Jassak, enviada pela ORPEG — Centro para o Desenvolvimento da Educação Polonesa no Exterior — para atuar em Guarani das Missões. Inspirada no modelo de férias escolares conhecido na Polônia, Marzena procurou adaptar a proposta à realidade da comunidade polono-brasileira.
A ideia, segundo seu relato, não era criar mais alguns dias de aulas tradicionais de polonês. O objetivo era fazer com que o idioma estivesse presente em diferentes situações do cotidiano: à mesa, durante as danças, nas brincadeiras, nas atividades artísticas e nos passeios.
fot. Prefeitura Municipal de Carlos Gomes e Associação Cultural Guaraniense
Polonês à mesa
Em Guarani das Missões e Sete de Setembro, crianças e jovens ligados à Associação Cultural Guaraniense e à Associação Cultural Ostoja Polska participaram de atividades conduzidas pelas professoras Natalia Lysyk e Ivete Wyzykowski Giordani.
As novas palavras em polonês eram apresentadas e imediatamente utilizadas nas atividades. Para Marzena, um dos aspectos mais significativos foi observar crianças que inicialmente tinham dificuldade para se expressar começarem, pouco a pouco, a utilizar espontaneamente palavras e pequenas frases em polonês.
A culinária foi uma das atividades de maior interesse. Nos workshops conduzidos por Cecylia Wyzykowski, os participantes prepararam pratos tradicionais como pierogi, pączki, placki ziemniaczane, szarlotka, faworki e miodownik. Ao mesmo tempo, aprenderam em polonês os nomes dos ingredientes, utensílios e ações realizadas durante o preparo.
A cozinha, porém, acabou se transformando em muito mais do que um espaço de aprendizagem culinária. Segundo Marzena, as atividades abriram espaço para conversas sobre família e tradição. O interesse das crianças chegou ao ponto de elas perguntarem quando poderiam aprender a preparar outros pratos, como a czernina.
fot. Prefeitura Municipal de Carlos Gomes e Associação Cultural Guaraniense
A língua também dança
A dança foi outro caminho encontrado para aproximar o idioma da experiência das crianças. Nas atividades de coreografia conduzidas por Maiara Siekierski de Oliveira, os participantes começaram com a brincadeira “Cabeça, ombros, joelhos e pés” e depois deram os primeiros passos da Polca.
A atividade combinou movimento, vocabulário e interação. As crianças precisavam ouvir instruções em polonês, aprender novas palavras e trabalhar em conjunto — tudo isso em um ambiente descontraído.
fot. Prefeitura Municipal de Carlos Gomes e Associação Cultural Guaraniense
Conhecer a história do lugar onde vivem
O programa também incluiu uma visita às Ruínas de São Miguel das Missões, sítio arqueológico relacionado à atuação dos jesuítas e à história e cultura dos povos indígenas Guarani. O local é um importante testemunho da história regional.
Para Marzena, conhecer a cultura não deve se limitar ao idioma ou às tradições familiares. As crianças vivem em um território marcado por diferentes processos históricos e patrimônios culturais, e conhecer essa realidade também faz parte de sua formação.
fot. Prefeitura Municipal de Carlos Gomes e Associação Cultural Guaraniense
Uma nova experiência em Áurea e Carlos Gomes
Em Áurea e Carlos Gomes, o projeto “Jovem Polônia – férias para futuros líderes da Polônia brasileira” teve uma abordagem mais diretamente ligada à história das comunidades de origem polonesa.
Os participantes conheceram locais relacionados à presença dos imigrantes poloneses, à religião e à educação. Também participaram de atividades artísticas, como a produção de wycinanki, tradicionais recortes de papel poloneses, e a criação de um mural coletivo, em oficinas conduzidas por Agata Grochot dos Santos.
fot. Municipalidad de Carlos Gomes y Associação Cultural Guaraniense
Em Carlos Gomes, o grupo visitou a Igreja de Santa Ana e a Escola Municipal Rui Barbosa. Também participou de uma oficina de flores de papel conduzida por Ana Kowalski, da BRASPOL Carlos Gomes. O encontro terminou com um lanche coletivo e o canto do “Mazurek Dąbrowskiego”, o hino nacional da Polônia.
fot. Prefeitura Municipal de Carlos Gomes e Associação Cultural Guaraniense
A experiência das professoras locais
Para Marzena, um dos resultados mais importantes das férias de inverno foi a colaboração com professoras locais de língua polonesa.
Uma professora enviada da Polônia pode trazer experiências, métodos e novas ideias, mas as educadoras que atuam nas comunidades conhecem profundamente as crianças, suas famílias e o ambiente em que vivem. A combinação dessas experiências permitiu adaptar melhor as atividades à realidade brasileira.
Na avaliação de Marzena, essa cooperação pode ser um dos caminhos para o desenvolvimento da educação polonesa no Brasil: não substituir o trabalho das professoras locais, mas promover colaboração, troca de experiências e fortalecimento mútuo.
fot. Prefeitura Municipal de Carlos Gomes e Associação Cultural Guaraniense
Mais do que aprender um idioma
Ao longo dos dias de atividades, os ganhos ultrapassaram o aprendizado linguístico. As crianças exercitaram memória, concentração, criatividade, coordenação motora e autonomia. Também aprenderam a trabalhar em grupo, conheceram aspectos da história local e desenvolveram interesses artísticos e culinários.
Mas, para a professora, o principal resultado foi a alegria demonstrada pelos participantes.
A emoção dos primeiros passos da Polca, o orgulho de preparar os próprios pierogi, a curiosidade diante de novas receitas e as conversas entre crianças de diferentes localidades deram às atividades um significado que vai além da sala de aula.
No final do projeto, uma pergunta feita pelas próprias crianças resumiu a experiência: “Quando serão as férias de verão?”
Para Marzena, essa foi a melhor avaliação possível. Se os participantes querem voltar, é porque não enxergaram aqueles dias apenas como mais uma obrigação escolar. Encontraram ali diversão, amizades, novas experiências e uma forma de vivenciar a cultura polonesa.
Como resume a própria professora, o objetivo era que as crianças não apenas aprendessem o polonês, mas que o idioma se tornasse para elas uma “língua de encontro”.
fot. Prefeitura Municipal de Carlos Gomes e Associação Cultural Guaraniense
A experiência no Rio Grande do Sul mostrou que a preservação da língua e da cultura polonesas entre as novas gerações pode acontecer também por meio da convivência, da culinária, da dança, da arte e do contato com a história. Quando aprender se transforma em uma experiência compartilhada, a língua deixa de ser apenas conteúdo escolar e passa a fazer parte da vida.
Os projetos “Férias de inverno com a cultura polonesa: língua, sabores e danças” e “Jovem Diáspora – férias para futuros líderes da comunidade polonesa no Brasil” foram realizados com o apoio do Instituto de Desenvolvimento da Língua Polonesa em homenagem a São Maximiliano Maria Kolbe e da Fundação “Ajuda aos Poloneses no Leste” em homenagem a Jan Olszewski.
Marzena Kowalczyk-Jassak
Tradução: dr Fabricio Vicroski